Ousar, sonhar, ir além...
- Psicóloga Marinea Fediuk
- 19 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Ousar, sonhar, ir além...
Acordei com o desejo de falar de algo que toque aquilo que há de mais saudável, leve e amoroso em nós. Sonhar... sim, sonhar com aquilo que ainda não é possível, acessível ou real no momento. Mas, que existe em nossos pensamentos e é real em nosso desejo.
Quando éramos crianças imaginar, sonhar era algo fluido, mas foi sendo cerceado por julgamentos e determinações de que isso era mentir, era fantasiar e isso era ruim. Para não sermos punidos fomos encarcerando nossa mente, e ficamos com tantos pensamentos e sonhos negados, enrolados uns nos outros que ficamos perdidos nesse emaranhado e, hoje não sabemos mais sonhar, sem desmerecer nossos desejos.
Quando paramos de sonhar, perdemos a energia para realizar, e tratamos as falas do passado como verdades, sim pode ser as falas de: “Pare de sonhar”, “Não seja bobo, isso não é possível”, “Isso não é para você”, “ Você vive com a cabeça na lua”. Essas falas ditas por adultos, por pessoas importantes para uma criança, se tornaram suas grades da prisão do desanimo e da ranzississe e, que o faz olhar tudo como se fosse impossível.
No dia 20 de julho de 1969 um homem pisou pela primeira vez na lua, e ele disse: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a Humanidade”. Pense que todos que tornaram possível essa realização sonharam, acreditaram e seguiram na direção do seu sonho. Eles tiveram a cabeça na lua por horas, dias e anos, tinham um caminho e porque seguiram em frente realizaram para eles e para todos a humanidade. Jean Paul Sartre, filosofo existencialista, diz que quando você faz uma escolha, está escolhendo para toda a humanidade, somos livres para escolher, mas isso inclui sermos responsáveis pelas consequências dessas escolhas.
Dessa forma penso que precisamos considerar que quando éramos vulneráveis, crianças nos foi cerceado de diversas formas sonhar, desejar e ir além. Agora precisamos tomar consciência dessa condição de liberdade e escolhermos retirar as grades do julgamento e dos medos que envolve não sermos validados, aceitos e amados.
Para voltarmos a sonhar, para voltarmos a desejar podemos nos inspirar em grandes feitos como o ser humano ter conseguido em 1969, sem a tecnologia atual chegar a lua. Há tantos outros feitos que podem nos mostrar que é possível ir além do que nos dizem que devemos ir.
Em 2018 estive no Egito, foram dias visitando os Templos do Antigo Egito e vendo a grandiosidade que até hoje espanta e encanta, contemplar o que ainda permanece me fez questionar verdades que foram postas sobre a história da humanidade. Me fez ser mais flexível com relação ao que sabemos e tudo que ainda temos que descobrir. E, sabe porque fui ao Egito? Porque era um sonho de uma menina que via filmes e desejou conhecer, guardou esse sonho como algo impossível, mas ele estava lá pulsando para ser lembrado, realizado. Sou mais feliz quando dou espaço aos sonhos, quando ouço os desejos que fizeram brilhar meus olhos.
Você pode pensar que foi fácil, que não sei sua vida, o que você passou. É verdade, mas você não imagina o meu caminhar, o que enfrentei, e o quanto tive que olhar para dentro do meu ser e ter coragem de vencer os medos, já cristalizados. Então, é possível, mas você precisa se permitir olhar para dentro de si e trazer para sua consciência os seus sonhos mais profundos, e esses são mais os belos.
Mas...eles só surgem depois que retirarmos os entulhos, os “nós” causados pelos traumas que bagunçaram nosso fluir da vida. Sabe aqueles gritos que nos fizeram tremer de medo, aquelas “palmadas”, aqueles olhares de raiva, brigas e outras dores, eles nos bagunçam de uma forma que passamos sentir e ver um mundo com temor.
E, a curiosidade divertida da criança se esvai como água jogada na areia.
A energia vital que nos impulsiona a descobrir é direcionada para um estado de alerta constante. Estar neste estado é tão desgastante que acabamos desejando que tudo fique parado, permaneça e qualquer mudança nos aterroriza. Ah!! Como nos tornamos distante da grandiosidade que somos em essência.
Temos tanto medo de ficar sozinhos, que abrimos mão de todos os sonhos para suportar ficar numa relação dolorosa, tóxica. Passamos a dizer que qualquer forma de amor feliz é ilusão, faz parte de contos de fadas, e por isso aqueles que parecem ser felizes é tudo fachada. Verdade, alguns são, mas em 27 anos como Psicóloga Clínica acompanhei centenas de pessoas, foram mais de 45 mil horas de atendimentos em psicologia clínica e posso lhe afirmar que há muitas relações de amor saudável, sejam familiares, românticas e amizades. Essa afirmação pode lhe causar desassossego, sinto muito não posso compactuar com as grades da prisão que lhe foi imposta por situações traumáticas.
Então, vamos voltar a sonhar? Sim, é preciso retirar os entulhos antes, para isso invista em você, continue sua psicoterapia, ou comece seu processo. E mergulhe com toda vontade nessa jornada de autoconhecimento e fortalecimento. Vamos sonhar, realizar e sermos pessoas que estimulam os outros e não mais aqueles que ajudam a fortalecer as grades da prisão.
“Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende.”
(Fernando Pessoa. Livro do Desassossego,
p. 55/56 Companhia das Letras)
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