O presente trabalho faz parte da dissertação de mestrado em Psicologia sobre os sentidos da maternidade para mulheres empregadas no comércio de Ponta Grossa. O objetivo desse artigo é analisar os sentidos da maternidade para mulheres empregadas no comércio. A maternidade é frequentemente considerada um evento naturalizado na vida das mulheres. Entretanto, sabemos que ela pode ser geradora de sofrimento, angústia e também conferir sentido existencial. Para isso, realizamos uma pesquisa com base no método qualitativo e utilizamos a entrevista semiestruturada para a coleta de dados. O referencial teórico utilizado para a análise dos dados foi a Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski e seus seguidores. Os resultados apontam para uma multiplicidade de sentidos atribuídos à maternidade, que vão desde a realização pessoal até a sobrecarga e a solidão. Concluímos que a maternidade é um fenômeno complexo que precisa ser compreendido em sua totalidade, considerando os aspectos históricos, culturais e sociais.
Os sentidos da maternidade na contemporaneidade
A maternidade, ao longo da história, foi sendo construída e ressignificada. Na contemporaneidade, observa-se uma multiplicidade de discursos sobre a maternidade. De um lado, a idealização da mãe perfeita, que dá conta de tudo; de outro, a possibilidade de escolha e de vivência da maternidade de forma mais autêntica e consciente.
Os sentidos da maternidade para mulheres empregadas no comércio
As mulheres que trabalham no comércio vivenciam uma realidade particular. A jornada de trabalho é intensa e, muitas vezes, não há flexibilidade para conciliar as demandas profissionais com as demandas familiares. A dupla jornada é uma realidade para a maioria delas. A maternidade, nesse contexto, pode ser vivida com culpa, cansaço e sobrecarga.
Metodologia
A pesquisa foi realizada com 10 mulheres empregadas no comércio da cidade de Ponta Grossa, com idades entre 25 e 40 anos, que tinham pelo menos um filho. Utilizamos a entrevista semiestruturada, que foi gravada e transcrita na íntegra. A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo, seguindo os passos propostos por Bardin.
Análise e discussão dos dados
A partir da análise dos dados, emergiram três categorias temáticas:
- Os sentidos atribuídos à maternidade;
- A conciliação entre trabalho e maternidade;
- A rede de apoio.
A primeira categoria revelou que a maternidade é significada pelas participantes como uma experiência ambivalente. Ao mesmo tempo em que é fonte de realização e amor incondicional, também é geradora de preocupações, privações e cansaço extremo. O mito do amor materno incondicional e da entrega total aparece nos discursos, mas é contraposto pela realidade da dupla jornada.
Na segunda categoria, as entrevistadas relataram a dificuldade em conciliar o trabalho no comércio com a maternidade. A falta de creches próximas ao trabalho, a rigidez dos horários e a ausência de suporte dos empregadores foram os principais desafios apontados. A culpa por "não estar presente" é uma constante.
A terceira categoria destacou a importância da rede de apoio, composta principalmente por mães, sogras e irmãs. As mulheres que contam com essa rede conseguem gerenciar melhor as demandas, enquanto aquelas que não possuem esse suporte vivenciam um maior nível de estresse e sobrecarga.
Considerações finais
A maternidade é um fenômeno complexo e multideterminado. Não pode ser compreendida apenas a partir de um viés biológico ou naturalizante, mas deve ser analisada considerando os aspectos históricos, culturais, sociais e afetivos. As mulheres empregadas no comércio vivenciam a maternidade de forma singular, com desafios específicos relacionados à dupla jornada e à falta de políticas públicas de apoio. É fundamental que a sociedade e as organizações ofereçam condições para que as mulheres possam vivenciar a maternidade de forma digna e saudável.
Referências
ALVES, Ana. Maternidade e trabalho: um olhar sobre a dupla jornada. São Paulo: Editora, 2018.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
VIGOTSKI, Lev. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.